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Crónicas de um Intestino Irritável

Há quem diga que é o segundo cérebro do nosso corpo, há quem defenda que é o mais inteligente. Aqui ficam as crónicas de um intestino irritável com todas as suas peripécias e salamaleques.

Crónicas de um Intestino Irritável

Há quem diga que é o segundo cérebro do nosso corpo, há quem defenda que é o mais inteligente. Aqui ficam as crónicas de um intestino irritável com todas as suas peripécias e salamaleques.

Crónicas da Gravidez: Útero septado

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(continuação)

Foi em Janeiro de 2015 que engravidei pela primeira vez. Como estava a tentar ser mãe, lembro-me que registava sempre as datas das minhas menstruações - assim como dos meus períodos férteis. Nessa altura, porém, esqueci-me de anotar. Numa manhã de Fevereiro, acordei indisposta. Bebi um sumo de laranja que me virou ao contrário - fui à Farmácia e comprei medicamentos para a gastrite. Fiquei de cama a beber muito chá preto (sem açúcar): dizem que acalma os espasmos do estômago. No dia seguinte estava fresca e fofa (estranhooo..... passou tão rápido?).

 

Não me recordo do dia da semana, mas sei que tinha ganho um grande projecto/cliente nessa tarde: desci pelo Chiado eufórica, parei para ouvir uns músicos - que tocavam e animavam quem passava com o seu carisma - enquanto sentia o frio na pele da cara. Fui para casa e fomos comer ovos rotos para comemorar a conquista profissional. De repente, pensei: o meu período está atrasado... mas não sei se 3 ou 15 dias. Como tinha sempre um teste de gravidez em casa, quando cheguei - agarrei na última urina do dia (em vez de ser a primeira) e fiz o teste. Já era um acto rotineiro para mim: pegava no "copo do xixi", ia para o WC, embebia o teste no dito cujo, fechava-o, esperava uns minutos e espreitava. Como costumava dar negativo, estava bastante descontraída. Enquanto aguardava, comecei a falar com a minha prima no chat... passaram-se alguns minutos, dei uma olhadela para as barrinhas e, pela primeira vez, vi 2 barrinhas em vez de 1. Devo confessar-vos que a minha reacção não foi a que esperava: o meu coração batia depressa, comecei a chorar como uma Madalena arrependida e pensei "afinal, já não quero". Vim contar ao meu companheiro. Depois do susto, veio o riso. Adormecemos cansados com as emoções do dia. A partir do dia seguinte, veio a euforia! Contámos a toda a gente (esperar?! Mas quem é que aguenta esperar para dar uma notícia destas pela primeira vez?!).

 

Passaram-se 8 semanas e, no dia 2 de Abril, fomos à nossa primeira consulta: uns dias antes da Páscoa.

O coração do bebé não batia: a gravidez era não evolutiva. Agora, era aguardar para que a o corpo tratasse do resto. Caso assim não fosse, tería de passar por uma intervenção para ajudar. Aguardámos, a Natureza fez o seu trabalho poupando-me a mais alguma dor. Senti-me aliviada por voltar ao meu Eu antigo - aquele que conhecia... e triste... não sabia explicar a dor, ou a tristeza. Apenas me sentia cansada como um trapo velho. Ouvimos coisas como: "É normal, mas primeiras gravidezes acontece muito.". Acreditámos e continuámos com a nossa vida. Veio novembro - lembrei-me que era o mês em que iria parir. O pensamento veio e foi, e continuei a minha vida.

 

Em outubro do mesmo ano, engravidei novamente. Íamos para o second round e quase que conseguia ver uma jeitosa desnuda, a passar dentro de uma arena de combate, exibindo um cartaz com o nº 2. Lá fomos nós: marcámos consulta, dissemos apenas "às mães" e tentámos ir com calma. Mais uma vez, às 7 semanas descobrimos que, afinal, não íamos ser pais. Desta vez, tinha meditado muito e pensei que os médicos estavam enganados: que ele era só mais pequeno do que eles acreditavam ser. Contudo o resultado confirmou-se: gravidez não evolutiva, descoberta de um útero septado, valores da tiróide altos e... tentem mais uma vez, que só a partir do 3º aborto é que fazemos um estudo para perceber o que pode ter corrido mal. O quê??? Está tudo louco?

 

Os meses seguintes foram passados a não pensar muito nisto. Afinal, porque queria ser mãe? Será que queria mesmo?

 

Em Dezembro de 2016, depois de consultar vários médicos e de perceber ao certo o que tinha o meu útero (um septo um tanto largo, que o atravessava e o dividia em dois), decidi avançar com a operação. Seria operada em Fevereiro de 2017, por um médico que tinha o mesmo primeiro e último nome que o meu companheiro. Só podia ser um bom presságio, não?

Crónicas da Gravidez: A decisão

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Há muito tempo que quero escrever este texto... na verdade, há mais de 2 anos. Só agora senti ser o momento certo... ou, talvez, só agora tenha tido coragem. É preciso alguma dose de energia para nos darmos - mesmo que através da escrita -, para nos entregarmos.

 

Não que isto seja importante, mas posso dizer que tenho uma "história" associada à minha gravidez. Não considero que, o facto de se "ter uma história" traga mais a esta vivência: contudo, todos gostamos de boas histórias...

 

Engravidei, pela 3ª vez, em Janeiro de 2017 - depois de 3 anos de tentativas e vivências que me ensinaram e moldaram - exactamente no momento em que "não deveria" engravidar. Lá no fundo, acho que sempre soube que seria assim: mas não queria era acreditar.

 

Como acontece com várias mulheres, sempre sonhei ser mãe. Já me perguntei, várias vezes, porquê. O que faz uma criança de 8 anos, adolescente de 16 ou uma pessoa no início da sua idade adulta querer "ser mãe"? O querer cuidar? Curiosidade? Instintos? Ou estigmas sociais?...

 

Em 2012, fui à minha consulta de ginecologia anual e disse à médica, a Dra. Margarida França Martins (também conhecida como Margarida Miguéis), que queria começar a tentar engravidar. Depois de uma conversa sobre ter ovários poliquísticos - onde fiquei a saber que poderia ter dificuldades a engravidar - sai do consultório e já não era a mesma. Comecei a ter um medo irracional de ser mãe. Lembro-me de pensar: "Como vou alimentar a criança? Como é que crianças tomarão conta de outra criança?... ... ...". Atenção, eu sei bem como se alimenta um bebé. Mas, na altura, o meu mindset mudou. E veio o nevoeiro... por muito tempo. Entrei num remoinho de medos e dúvidas, no qual me perguntava se - de facto - quereria mesmo este papel. No meio deste novo estado mental, comecei a tentar engravidar. Sabia que o medo me estava a toldar a razão, mas iria tentar. Lembro-me de desejar ficar grávida "sem querer" (upsss... escorreguei e estou grávida). Obviamente, não estava preparada para ser mãe. E, assim, se passou o primeiro ano: entre tentativas e confusão.

 

(continua...)