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Crónicas de um Intestino Irritável

Há quem diga que é o segundo cérebro do nosso corpo, há quem defenda que é o mais inteligente. Aqui ficam as crónicas de um intestino irritável com todas as suas peripécias e salamaleques.

Crónicas de um Intestino Irritável

Há quem diga que é o segundo cérebro do nosso corpo, há quem defenda que é o mais inteligente. Aqui ficam as crónicas de um intestino irritável com todas as suas peripécias e salamaleques.

Crónicas da Gravidez: à terceira é de vez!

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(continuação)

 

Bem sei que isto, assim dividido, quase parece uma telenovela: onde cada capítulo sai num dia (não digo uma série, pois o assunto não está bem estruturado o suficiente para tal). Contudo, considerei que seria menos maçador assim... e, afinal, são crónicas! 

 

Vou então passar para a melhor parte da história: a conclusão. :)

Após relfexão e ponderamento, decidi avançar com a cirurgia para remover o septo do meu útero. Seria, se tudo corresse bem, uma operação simples, sem cortes externos e podia ir para casa no dia seguinte à mesma. O factor "anestesia" nunca foi algo que me seduzisse e era o que mais me assustava: "vou adormecer assim e acordar como?". Mas, a vontade de uma gravidez promissora e tranquila falava mais alto. A questão: "e se depois de ser operada voltar a abortar?" era algo que, volta e meia, me vinha perturbar a mente. Não obstante, uma coisa de cada vez... 

 

A cirurgia iria acontecer em Fevereiro 2017 e, certamente não era altura para engravidar. Depois de muito resistir à ideia de vir aqui alguém cortar o meu útero por dentro, confesso que me senti muito aliviada com a minha decisão. No entanto, o Universo tem - tantas vezes - surpresas na manga e (teimoso) só faz o que quer!

 

Em Janeiro de 2017, após apenas um pequeno "deslize" - nua noite improvável, uma vez que estava longe (pensava eu) de estar no meu período fértil: alguém decidiu que era altura para vir e (pelos vistos) ficar!

 

As primeiras semanas foram de muito medo e cautela: esperei o momento certo para contar ao pai, marquei médicos (obstetra, clínica geral e endocrinologista), aguardamos para ver como seria. Preparámo-nos para o cenário que nos era já familiar, mas decidi tentar ao máximo encarar esta experiência como se fosse a primeira vez: com entusiasmo e sem medos. Foi... desafiante e nem sempre fui bem sucedida. Às 6 semanas, tive uma grande hemorragia. Vim para casa, dormi, fui às urgências e já conhecia o resto da história. Surpreendentemente, pela primeira vez, a médica disse: temos um coração a bater. Sai de lá mais espantada do que se tivesse tido outra notícia - e uma semente de esperança (pequenina) começou a brotar. 

 

Actualmente, estou grávida de 24 semanas: acabámos de atingir o limiar que indica que - se o bebe nascer agora - já pode ser considerado viável. Isto quer dizer que o farão tudo por ele. 

 

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Gravidez com um útero septado

 

Há muita gente que engravida e consegue ser mãe com úteros septados. É claro que, cada caso é um caso: cada septo é um septo; cada corpo, um corpo. Há senhoras que só descobrem terem um útero septado com 60 anos, depois de terem tido 3 filhos sem uma única complicação.

 

Os riscos iniciais são o facto do feto poder alojar-se junto ao septo - um tecido fibroso que não é irrigado com tudo o que é preciso. Portanto, até às 12 semanas foi esperar que ele se fixasse nas paredes do útero: e não no septo. Foi o que aconteceu desta vez - ao contrário das outras.

 

Tive hemorragias durante 3 meses - sem parar. O lado esquerdo do meu útero encheu-se de sangue que foi sendo drenado durante esse tempo. Não me trouxe dores, apenas alguma preocupação - contudo a médica sossegou-me: o bebé estava bem, era apenas o útero a "limpar".

 

Fui avisada que teria dores. Até agora, tenho cerca de 1 semana de dores mais intensas por mês. A médica avisou-me que, a partir das 28 semanas, poderiam ficar mais fortes e constantes: o bebé vai começar a crescer a sério. 

 

Deveria ter feito a amniocentese, uma vez que um útero septado e cheio de sangue levariam à indicação para o mesmo. Mas os resultados do rastreio vieram todos negativos: safei-me!

 

Avisaram-me que deveria esperar pela chegada do bebé a partir das 30 semanas. Terei tudo pronto e a mala feita nessa altura. Ainda assim, falo com ele todos os dias explicando-lhe que o meu útero é especial (digo-lhe que tem sorte, pois é em forma de coração) e que ele deve crescer forte, saudável, confiante e feliz - e assim ficar aqui aconchegado até, pelo menos, às 36 semanas. Será que vamos conseguir? Repito-lhe, também, que juntos vamos conseguir. Por vezes, tento descomprimir das dores que sinto a chorar. Como digo, aproveito para pôr o choro em dia e ajuda-me a lidar com elas. Enquanto choro como quando tinha 8 anos, vou-lhe dizendo que aquilo não é nada com ele e que é apenas uma forma de eu conseguir superar o desafio.

 

Houve algumas pessoas que não acreditaram que esta gravidez fosse dar certo. Uma delas foi uma familiar próxima, que repetiu que não seria possível ter este bebé e que, mesmo que ele por aqui ficasse até aos 6 meses de gravidez, após esse tempo teria de ser retirado... respeito a opinião alheia e escolho acreditar e moldar a realidade que quero para mim. Se ela vai ser conforme a imagino e a sinto? Não sei... espero que sim. Gostava que todos os que me rodeiam estivessem sintonizados com esta minha vibração. A maioria está, e isso é importante para nós: sentimos o positivismo de quem amamos, a vontade de que tudo corra bem. E isso - estarmos todos a torcer pelo final feliz - é maravilhoso.

 

Tenho ouvido muitas partilhas de gravidezes curiosas, incríveis, improváveis e de bebés "milagre". É, realmente, um mundo em que muito não se explica - e muito acontece. Se quem me está a ler tem algum problema que dificulte a gestação, se alguém vos tirou a esperança, se estão perdidas ou assustadas com alguma situação: espero que este depoimento (embora pouco melódico) vos traga uma centelha de esperança e vos faça acreditar que é possível. Muitas e muitas vezes, é possível e mais fácil do que parece. Confiem, procurem, esqueçam os entraves mentais que vos criaram. E apenas acreditem e confiem na vossa natureza feminina. A nossa mente é poderosa e faz milagres.

Histórias estampadas

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A nossa história e vida está escrita no nosso corpo que é como um livro, um mapa, aberto - que só nós conseguimos verdadeiramente decifrar. Cada ruga, cabelo(s) branco(s), cada sinal, cicatriz, dente torto, mais escuro ou falta dele: transporta-nos para uma época, altura, idade ou circunstância. O relógio continua a funcionar, com mais ou menos corda, e nós continuamos a fluir, com ele, pela vida.

 

Podemos deparar-nos com os nossos traços de história todos os dias. Mas não são só eles que estão impregnados da energia de momentos vividos que nos tornam quem somos. Há outras coisas que nos falam, em sussurros, sobre outros tempos: e a história que nos vão segredar ao ouvido, pode nem sempre ser a nossa. Sempre que visito um monumento ou local de antigamente, sinto algo no ar que me põe, automaticamente, em modo contemplativo - quase que apático. É como se os meus sentidos e energia se tornassem pastilha elástica e se moldassem a tudo o que aquelas paredes testemunharam, escutaram e a tudo o que se por ali viveu. Começo a imaginar... e viajo.

 

Ontem, deparei-me com um lugarejo assim. Algures, perdida perto de Vila Real, numa aldeia, uma casa descansava - ainda com janelas e telhado - de porta fechada.

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Por entre silvas, entrei. No interior, vários relógios espalhados - principalmente num dos quartos pequenos e toscos - riam-se de nós, do Tempo. Um deles ainda mostrava toda a sua vitalidade por detrás do seu pujante tic-tack. Olhando para as paredes, pensei que histórias escondiam: quantos filhos nasceram ali? Quantos netos lá pernoitaram? Que odores dançavam dentro daquele fumeiro? Quantas vezes foi despejado aquele penico que repousava, ainda, debaixo de uma cama cujo colchão era o banquete vivo da bicharada?

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Pelas paredes, crenças impressas rejubilavam preces fervorosas que talvez tenham sido ouvidas: a fome que não foi grande naquele inverno, a praga que não atacou as árvores de fruta, os grãos que - dia após dia - continuavam a crescer na arca onde estavam, religiosamente, guardados. O vinho... que alegrava vidas mais tristes e aquecia tripas friorentas. Quem sabe?... Um Santo António erguia-se, majestoso e cuidador do menino que carregava nos braços, contudo, sem cabeça. Alguma discussão que se lha fez perder? Talvez tenha ficado demasiado tempo de castigo, cabeça para baixo, por não ter arranjado casamento às donzelas da casa?

 

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Nesta casa de gente simples: pequena e despretensiosa, um espelho pendia à porta. Seria para o agricultor se mirar, ao raiar da madrugada, antes de sair para a lavoura barriga cheia de sopa de feijão? Ou seria para ao domingos, antes de irem para a missa, poderem atestar que tudo estava nos devidos conformes?

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