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Crónicas de um Intestino Irritável

Há quem diga que é o segundo cérebro do nosso corpo, há quem defenda que é o mais inteligente. Aqui ficam as crónicas de um intestino irritável com todas as suas peripécias e salamaleques.

Crónicas de um Intestino Irritável

Há quem diga que é o segundo cérebro do nosso corpo, há quem defenda que é o mais inteligente. Aqui ficam as crónicas de um intestino irritável com todas as suas peripécias e salamaleques.

Ordem de despejo :: Para o bebé, do intestino

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Foi numa segunda ao final da tarde: já estava de malas preparadas, mas não esperava ter de sair tão cedo. Tocaram à campainha. Primeiro uma vez, e outra... insistiram... a porta foi arrombada no exacto momento em que ele se preparava para descansar. A luz entrou: um clarão invadiu todo o seu espaço e o tempo parou. Se lhe perguntarem, responderá que apenas permanecem na sua memória fragmentos que navegam em câmara lenta à frente dos seus olhos: a água a desaparecer num turbilhão... um susto... uma mão... um puxão... luz, muita luz... um ambiente diferente: ar... aqueles sons... todo aquele brilho... o medo... o corpo a ser empurrado e manipulado... a voz dela de novo (parecia diferente agora)... finalmente, a sua pele... um tecido quente na sua boca... aconchego... e de novo solidão. Onde estaria? Deixou-se de novo ir. Quando acordou, o mamilo quente na sua boca: a segurança, aquela sensação de paz... E de novo o nada.

 

E assim foi durante uns tempos. Depois da ordem de despejo, ele ia e vinha - por entre escassos momentos de alguma presença e lucidez. Ela concentrava-se para se adaptar e cuidar dele o melhor possível. Visitas... muitas visitas. Vozes, toques, risos, sons agudos, cheiros. Que mundo seria este? Enquanto ela lá estivesse, tudo poderia funcionar mais ou menos bem. Que mundo novo seria este? Aquele ser pequenino, magro, enrugado que dependia dela? Seria normal? Se calhar não era e ninguém tinha coragem de lho dizer. Parecia estranho... estaria doente? O que estaria a sentir? Ela não sentia grande coisa... seria normal? Não era que não gostasse dele: já era impossível pensar na sua vida sem ele ao seu lado. Mas não estava apaixonada. Não o achava extremamente belo. Não tinha ficado emocionada e o seu coração... continuava igual - ainda não tinha derretido de Amor. 

 

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O meu filho nasceu às 21:22 de uma segunda-feira, de cesariana. Não era o parto sonhado (será que não? A verdade é que morria de medo de pensar que um bebé ia passar pelo meu canal vaginal e sair... enfim... por aquele buraquinho que não parecia ser assim tão grande!), mas era o esperado: ele estava sentado e não ia dar a volta. Na consulta daquele dia, com 37 semanas, a minha tensão estava alta e ele tinha de nascer. Internamente, expliquei-lhe o que ia acontecer: tinha a secreta esperança que ele recebesse a mensagem e que o momento se tornasse menos assustador. Não há partos certos e errados. No percurso, aceitei que não era menos mãe, menos mulher por ter tido uma cesariana.

 

Tudo correu extremamente bem: sem dor, sem reacções a anestesias, sem percalços. Ele nasceu: era mesmo um bebé que tinha na barriga. Fiquei incrédula! ;) Contudo, estava tão focada em manter o meu equilíbrio interno, que só depois de 6 meses consegui categorizar o meu parto como um dos momentos mais impressionantes e marcantes da minha vida. Antes disso, apenas flutuava sobre as lembranças dos acontecimentos. Também posso partilhar que - apesar de ter amado o meu filho desde o primeiro momento - só me apaixonei por ele 2 meses depois. Ou terão sido 3?... Precisei de tempo para voltar a mim. Para integrar. É mesmo assim: respeito todo o meu sentir e agir.

 

Agora, no dia em que ele faz X meses de nascimento, conecto-me com aquele rápido momento. Revivo. Sinto. Permito-me.

Por vezes, olho para ele e ainda me pergunto: "Estás aqui?!". 

 

Para mim, os 4 primeiros meses foram muito desafiantes. Foram estranhos, confusos. Depois, ele começou a florescer e - com ele - o meu coração também. Estou a viver cada gota deste aprendizado: adoro passar pelas novas etapas com ele. Não é só o seu primeiro sorriso, o seu primeiro Natal, a sua primeira sopa. É a NOSSA. Eu, enquanto mãe. Gosto de me informar, ter escolha, testar, errar, voltar a tentar, sentir, viver. É um momento glorioso e que quero sereno. Há muita gente que não respeita esse momento e vivência única e mágica e que acha que temos de nos circundar de regras alheias e que não nos dizem nada. Isso retira algum brilho ao momento: desgasta. Mas, ainda assim, é maravilhosa toda a partilha que temos em família. É uma jornada incrível, que acaba de começar e que desejo longa. Não preciso de mais nada... <3

34 semanas cheias de peso

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Foi-me dito para me preparar para um bebé prematuro... assim o fiz. Juntamente com essa info, foi-me sugerido que estivesse mentalizada para uma série de outras peripécias pelas quais não vale a pena debruçar-me. Dei-lhes a importância que lhes era merecida: nenhuma. Não me permiti potenciar algo que ainda não existia. Aprendi a paciência e um pouco mais sobre confiança.

 

Hoje, às 34 semanas, pude retirar da minha mala maternidade SOS (a que tem apenas a primeira roupa, exames, umas fraldas e a máquina fotográfica) as fraldas para bebés até aos 2,5 Kg. O meu já está acima, pelo que já não preciso de as ter comigo. É apenas mais um gesto, mais um degrau que é subido em direcção à porta que nos transporta desta aventura para a próxima. Mas é assim que é. Como alguém o diz, é assim que é a "alma a viverem experiência humana". Com possibilidades incríveis de aprendizagem em cada passo que damos, seja ele sentido como melhor ou pior.