Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Crónicas de um Intestino Irritável

Há quem diga que é o segundo cérebro do nosso corpo, há quem defenda que é o mais inteligente. Aqui ficam as crónicas de um intestino irritável com todas as suas peripécias e salamaleques.

Crónicas de um Intestino Irritável

Há quem diga que é o segundo cérebro do nosso corpo, há quem defenda que é o mais inteligente. Aqui ficam as crónicas de um intestino irritável com todas as suas peripécias e salamaleques.

Quando o intestino entra em pânico

panico_intestino.png

 Hoje estou aqui para vos falar de Pânico. Há tanto que vos quero contar e que nem sempre partilho por não saber nem como começar! A vida só faz sentido se for preenchida por coisas boas, alegres, positivas e que nos fazem vibrar. Contudo, a nossa condição de humanos e os desafios que nos são impostos e nos fazem crescer, são uma realidade. Desta forma, acho importante partilhar alguns dos meus desafios de vida e condição humana. Uma das várias vantagens desta rede global que é a Web é o facto de podermos estar ligados em partilha, de podermos estudar e trocar experiências - de chegarmos de forma incondicional aos outros. Há conforto e sentimento de companhia quando isso acontece. E isso é importante.

 

Comecei a ter ataques de pânico em 2003. Um dia, sai da faculdade - em Lisboa - e senti-me mal perto de uma paragem de autocarro. Muito mal. Consegui voltar à portaria da faculdade e pedir ajuda antes de desmaiar. Uma intoxicação alimentar começava a manifestar-se. Os porteiros ajudaram-me, deram-me água e ficaram comigo até conseguir voltar a erguer-me. Quando isso aconteceu, deram-me a escolher: ou chamavam uma ambulância e eu ia para o hospital, ou eu seguia viagem. Escolhi a segunda opção - tudo o que não queria era, no meu 1º ano de faculdade, dar nas vistas com uma ambulância a apitar para me ir buscar (e depois ter de enfrentar o hospital sozinha e por um tempo que podia prever-se longo). Sai da portaria e não me sentia nada bem - fui até ao interior da FCSH e deitei-me num banco. Adormeci. As minhas colegas ou possíveis conhecidos já tinham saído e tinha de me desenrascar sozinha. Estava com receio de me sentir mal no táxi. Contudo, era a opção mais viável para chegar a casa (felizmente tinha dinheiro para chamar um táxi) e assim foi. A viagem correu bem, fui à farmácia para ser medicada, passei mal uns dias e pronto. Passados 2 dias estava pronta para voltar às aulas e sai de casa. Fui até à paragem do autocarro, esperei, ele chegou, entrei. E foi aí que começou... comecei a sentir-me muito mal, com falta de ar, certa de que ia desmaiar ou vomitar ou tudo ao mesmo tempo. Sufocar. Sai na paragem a seguir e voltei para casa o mais rápido que consegui. Quando entrei no meu porto seguro, o mal-estar passou. Tentei várias vezes ir para a escola: mas nunca conseguia. As sensações foram-se rebuscando apoiadas pela imaginação. Agora, em acrescento ao que descrevi acima, "ficava" com uma infecção urinária super-sónica (chegava à velocidade da luz e sumia-se assim que entrava em casa). Comecei a estudar em casa, não contei nada a ninguém - até porque nem eu sabia bem o que raio era aquilo. Tinha a sorte de não ter faltas na minha faculdade e assim foi. A coisa complicou-se quando percebi que também não conseguia sair à noite, ir ao cinema, entre outras coisas. Actividades com outras pessoas - mesmo que amigas - era complicado: não queria que me vissem a surtar e fugir desvairada por conta da minha imaginação. Sozinha, como podia fugir, conseguia. 

 

Se a mente engana o nosso emocional, nós podemos também enganar a mente. Consegui começar a arranjar truques. Não era perfeito, mas já ajudava. Percebi que, se o sítio onde fosse tivesse um WC onde me pudesse barricar, ter a minha "psicose", acalmar-me e sair quando bem entendesse - eu conseguia lá estar. O WC deveria, de preferência, ter várias cabines para não sentir pressão de que tinha de sair dali rapidamente. Isto foi como começou...

 

Os ataques de pânico, baseados na minha experiência pessoal (nunca estudei o assunto) vão e vêm por fases. Também se refinaram e a minha imaginação fértil aproveitou o assunto para os deixar mais criativos na sua expressão: têm vários temas e circunstâncias. Começaram apenas com sensações físicas, mas a imaginação depressa entra em cena e - se deixarmos - alimenta cenários de medo e insegurança: quase sempre trágicos. Depois de experienciares alguns ataques de pânico, começa algo que nos consome: o medo do medo. Já não tens só medo do pânico, tens medo de ter medo e, consequentemente, tens realmente muito medo e grandes níveis de ansiedade.

 

Depois de muito reflectir sobre isto, penso que os meus ataques de pânico estão relacionados com o medo da dor e da insegurança; a descoberta de que sou humana e, portanto, falível e frágil; e, claro, a percepção do risco que é a vida e da morte. Isto porque o quadro que eu pintava de todas as premissas acima, era inaceitável e terrível.

 

Uma vez li, num livro de Augusto Cury, o seguinte:

o ser humano acede à sua memória através de janelas específicas e o seu maior desafio é abrir o máximo de janelas saudáveis, ou light, para dar respostas inteligentes. Os ataques de pânico são registados pelo cérebro de forma traumática, criando janelas killer. Estas janelas bloqueiam o processo de leitura de milhares de outras janelas saudáveis contraindo, assim, a sua racionalidade. Preso numa janela killer, tornamo-nos irracionais. Desta forma, encarceramos a nossa capacidade de escolha e realimentamos as crises de pânico. Freud acreditava que o trauma original era o grande problema, mas, na realidade, é a retroalimentação que nos adoece. Estas janelas killer são traumas marcantes produzidas por estímulos profundamente stressantes como a traição, as perdas ou a humilhação pública.

 

Vamos pintar um novo quadro

INTESTINO.png

Quem somos? Em que acreditamos? Quais os nossos valores e porque são esses os valores que habitam na caverna do nosso inconsciente? Que correntes tiveram mais influência sobre nós, moldando-nos mais? Culturais, religiosas, espirituais? Até que ponto somos NÓS? Até que ponto, resistimos de sermos realmente NÓS?

 

É confortável viver com quem acreditamos ser - muitas vezes, na nossa confusão mental do que isto representa. Sentimos que não somos de todo assim, mas não sabemos ou conseguimos perceber como ser de outra forma. Como sair do meio do novelo de nós que está criado à nossa volta. Resistimos... temos vontade de não o fazer, mas muitas vezes, temos mais apreensão do que vontade. Receio do novo, do desconfortável. Ou então, apenas não vimos como podemos construir a nossa nova realidade fiel à nossa vontade interna. É como termos uma tela pintada e não gostarmos do desenho e não percebermos que podemos criar uma tela nova, branca. Quando a tela branca chega, uma dança de borboletas inicia-se na nossa barriga... o coração e entusiasmo querem... a mente e a mão tremem... e se esta também não ficar como sinto? Se falhar nesta também? E se for difícil demais? Há um medo em acreditar que é possível - que é permitido. Há um medo, ainda maior, da frustração e da falha.

 

Pergunto: valerá a pena olharmos para a nossa tela e convivermos com uma pintura que não gostamos e nos enfeita o nosso espaço, em detrimento de tentarmos e tentarmos e tentarmos criar uma tela nova, bem à nossa medida, que cada vez que é observada nos preencha o SER de cima abaixo? Qual será a maior das prisões: uma conformidade e tristeza continua ou um cair e levantar constante, em busca do que ambicionamos? 

 

Muitas vezes, quando não conseguimos ter coragem de acreditar que nos cabe a nós deitar a nossa antiga tela fora e adquirir uma nova, a Vida (ou o Universo, ou Deus, ou a Divindade, ou a Energia,...) dá uma ajuda - como ela tão bem o sabe fazer. Quando tem de ser, podem acontecer experiências fortíssimas que nos obrigam literalmente a largar situações e crenças enraizadas e mudar o nosso "chip". E aí percebemos que não temos de viver em esforço, dificuldade, tensão, numa redoma fechada de luta desgastante. Que podemos superar-nos nesse sentido, reescrever-nos - interna e externamente. Que podemos seguir, deixando o medo, a ansiedade, a sabotagem, o controlo, a frustração e a dúvida pelo caminho. Que somos donos da nossa Essência e que escrevemos a nossa história, as nossas células, cada traço e movimento que emitimos.

 

Não precisamos ser Seres resignados cuja nossa identidade anulamos em detrimento disso.
Podemos identificar padrões... reflectir sobre eles... deixá-los ir com segurança e Amor: libertarmo-nos. Por esta ordem.

 

Vamos aceitar a nossa limitação, entregar, reflectir e, passo a passo, mudar estruturas com muita calma, paz e amor-próprio. Com muito respeito por nós. E, com alegria no nosso coração. É como mergulhar - sem hesitações - num mar negro que, conforme vai sendo explorado em profundidade, fica mais claro, aconchegante e colorido.

 

Por isso, sempre que sentir desafios e resistência, aproveite! Sorria e pegue nisso, identifique, leve do inconsciente para o consciente e crie condições para se expandir e libertar. Não viva mais à deriva... avance. Porque a vida dá-nos apenas estas 2 opções. 

 

A época da ilusão, do medo, das crenças de controle para se chegar à perfeição, estão a ser derrubados por um novo paradigma de entrega total. Estamos a ser convidados para um despertar incrível que nos convida para uma vida de Acreditar.

Por entre "portas" e "travessas"

shutterstock_266694722.jpg

 

No meu encontro do hoje comigo mesma, percebi que a minha mente tinha um feitio péssimo! Quando digo "péssimo", é porque é mesmo intragável! Para além de ter achado bastante pesada, não estava à espera de a encontrar com tamanho mau-feitio, má educação, ego e mania de que quem manda e é a "bad girl" lá do sítio ser ela! Mas, se calhar, antes de avançarmos, é melhor recuarmos um pouco. Não quer que a vossa mente fique com TPM só de ler esta crónica e não perceber patavina.

 

Nas minhas tentativas de me perceber, conhecer, aprimorar (sim, esta palavra dá outro charme à coisa) tenho meditado até ao meu interior. Convém explicar que quando medito - e de forma a fazer uma finta à minha mente - arranjo uma forma bastante animada de me relacionar com as coisas. Quando digo animada, é mesmo animada: muitas das minhas visualizações são feitas através do incrível mundo dos desenhos e cartoons. São coloridos, simples de entender, dinâmicos e rápidos de assimilar. Para além disso, fazem-me rir. Por isso, parece-me bem que assim seja (ao início não me parecia muito bem, uma vez que achava que fazia com que a coisa se tornasse menos séria. Ver um anjo dourado a transmitir-me uma mensagem celestial = válido; ver um cartoon que através do seu humor, cores me diga o que o meu sub-consciente e corpo me querem transmitir = pouco sério, então?!).

 

Posto isto, continuemos. Hoje foi dia de visitar a mente (dei uma espreitadela a alguns órgãos do corpo também) e, fiquei surpreendida com a falta de chá com a qual fui recebida! Que serzinho mais feio! E eu que a tinha em tão boa conta. Se calhar, não a devia ter colocado num pedestal tão alto, nem alimentado com o facto de que a considerava o ser mais importante do meu corpo... A minha mente estava cinzenta, pesada, gritava com os restantes órgãos do corpo e percebi que me condicionada as minhas decisões de vida, auto-estima, segurança em mim, vivacidade e energia vital em demasia. Percebi que, para ela, era mais confortável criar dúvidas que levavam ao medo constante, de forma a me ter sob seu controlo e poder. Tive de lhe dar um valente ralhete, claro está! No meio disto tudo, é engraçado ver como o coração ali estava, a aguardar com a sua sabedoria, paciência, ternura - como grande Mãe que é. Apenas a sorrir, pronto a acolher-me, mesmo depois de ter sido esquecido durante tanto tempo. <3

Um puzzle chamado de Minha Vida

shutterstock_143454589.jpg

Há muito que quero começar a escrever sobre o meu Ser mais profundo. É engraçado contar as nossas aventuras e peripécias - minhas e do querido intestino - mas há um apelo para mais. Tanta riqueza de informação, tantos fluxos, momentos, pensamentos, aprendizagens,... que parece quase mal não escrever sobre elas. Mas, sabem como é: o pessoal vai deixando passar... deixando passar... depois, tanta água correu debaixo da ponte que nos perguntamos por onde começar e se ainda fará sentido. Decidi começar do Agora - pois nada mais real do que o Agora, certo? Pelo meio, certamente, alguns rasgos do passado. Que o meu sentir me dê coragem para continuar esta partilha - pois nada me deixa mais feliz. Mas a mente.... é uma malandra e está sempre a tentar das suas! Vem com as suas manhas e abana-nos com ideias estapafúrdias como a de que temos preguiça, não somos capazes, não estamos "naquele dia criativo" conforme se acena com uma cenoura à frente dos olhos de um burro e nós, lá começamos a seguir os seus desígnios todos gulosos!

 

Hoje senti que era tempo de não adiar mais. Até porque estamos a passar por um segundo eclipse (deram-se 2 este mês), que pretende vir cutucar-nos e dizer que chegou um novo tempo, um tempo fora da manipulação do ego (e mente) onde o medo de sentir já não nos deve dominar (se assim for a nossa escolha). O desafio diz-nos para deixarmos para trás a ilusão de que temos que controlar partes do nosso Ser, mascarando essa acção com o facto de que o fazemos para atingir o equilíbrio.

 

Faz 1 ano este mês que eu comecei uma nova etapa de como me relacionar comigo própria: num propósito de conhecimento da minha pessoa verdadeira e de aceitação. Num processo de aceitação que tenho várias peças do meu puzzle espalhadas (muitas delas desconhecidas) e que estas têm de ser encontradas, olhadas, percebidas e juntas às outras para formarem um todo. No fim, não pretendo emoldurar a minha criação e por na parede da minha sala. Pretendo viver o meu puzzle usufruindo das peças todas! Não quero nem aceito ter mais medo do que vou descobrir que sou, da dor, do confronto com o corpo e com o sentir, de assumir a minha pessoa adulta com toda a sua história e percurso até então.

 

O primeiro passo foi saber que queria mudar. Depois, tive de ganhar coragem mascarando esse tempo com algumas actividades que fingiam que estava a remar rumo ao meu objectivo. Houve (e há) muita confusão, dificuldade, ansiedade, andar para a frente e para trás... e para trás mais um bocado, e para a frente mais um nadinha. Ufa. Houve dias em que nada fazia sentido e o pânico toma conta - o desconhecido chega a nós e assusta-nos. Dias de compreensão, entrega e pura alegria. Dias de Amor e clareza - de confiança. 

 

Hoje percebi o quanto é simples o caminho. Tão simples. Mas percebi, também, quantas vezes e com quanta facilidade me esqueço dessas indicações tão simples. Gostava de não me esquecer - mas aceito que o faça - é assim que sou. Na verdade, e vai parecer tão cliché escrito apenas assim, a mente é o que me faz esquecer e confunde. Mas isso vou deixar para outra história... grão a grão, As Crónicas do Intestino Irritável irão encher os papos ;) Obrigado por me acompanharem.

 

 

 

Tea Time with the Liver

liver.jpg

 

Hoje foi dia de visitar antigos conhecidos... não, não estava na agenda nem planeado. Não marcámos, fomos convidados, nem levámos um presente para o nosso anfitrião. Apenas aparecemos e, acreditem, ficámos tão surpreendidos como quem nos recebeu! Hoje foi dia de ir beber chá com o fígado (e outros amigos, mas vamos ficar pelo fígado mesmo).

 

Num trabalho de introspecção - e do chamado desenvolvimento pessoal -, trilhando aquele caminho que não podemos deixar de desbravar, hoje tivemos um encontro com alguns dos nossos órgãos.

 

Encontrei o meu fígado no seu canto, grande e pachorrento como um senhor na casa dos 60 cuja paciência já se encontrava um pouco esgotada. Afinal, para um senhor cuja idade já pesa, que vive rodeado de outros órgãos vivaços (alguns quase psicóticos até), nem sempre é fácil. No seu refúgio lateral, como que conformado com a vida e já sem a sua companheira (a vesícula biliar há já alguns anos que se foi), que mais pode um velho sedentário fazer senão suspirar e aguardar? Foi assim que o encontrei. Não se podia dizer que estava de mau humor, mas a sua sapiência permitia-lhe não ter de simular qualquer empatia ou simpatia por ali me ver. Quase que com receio de o incomodar, fui tentando perceber porquê daquele meu velho "dinossauro" se encontrar com tal astral. Não foi preciso palavras para perceber que, quando somos pesados - cada vez mais pesados - a mobilidade é algo que não queremos desbravar. E assim ali se ficou, num local onde - segundo ele - a sua única amiga (ou inimiga) é a boca. Lá me confessou que era dela que gostava e que só ela poderia cuidar dele. Findei a minha visita despedindo-me e fiquei a pensar em tão encorpada personagem. A boca - o seu único e grande amor - amá-lo-ia tanto como ele a ela? Creio que não. Sendo assim, entrei numa missão de amor ao próximo, neste caso, ao meu fígado. Que precisa, na certa, de emagrecer e ganhar alegria de viver!